Estruturas secretoras
e sua utilização agronômica
A secreção compreende os
complexos processos de formação – podendo incluir a síntese – e isolamento de
determinadas substâncias em compartimentos do protoplasto da célula secretora e
posterior liberação para espaços intercelulares ou para a superfície externa do
corpo do vegetal (CASTRO; MACHADO 2006).
As estruturas secretoras foram
divididas em duas categorias: (i) estruturas secretoras externas,
aquelas cujo exsudato é liberado para o ambiente externo e (ii)
estruturas secretoras internas, localizadas no interior da planta, cujo
exsudato é liberado para o ambiente externo somente quando há injúria do órgão
(CARDOSO, 2011).
I- Estruturas secretoras externas
Coléteres
Coléteres são tricomas multicelulares,
emergências ou glândulas vascularizadas que produzem secreção mucilaginosa e/ou
lipofílica (FAHN 1990; RIO et al. 2002, 2005). Esta secreção protege
órgãos vegetativos e reprodutivos em diferenciação contra a dessecação,
enquanto a porção lipofílica atua como dissuasivo contra microorganismos
(DEMARCO 2005). Atribuem-se a esta secreção, ainda, a promoção de associações
simbióticas com bactérias e a facilitação do deslizamento entre as superfícies
durante o desenvolvimento dos órgãos (LERSTEN 1975, KRONESTEDT-ROBARDS; ROBARDS
1991).
O uso do termo “coléter” varia
entre diferentes autores devido ao critério usado ao definir estas estruturas,
como morfologia, localização e natureza química da secreção (LEITÃO; CORTELAZZO
2008). No entanto, o termo “coléter” é mais bem empregado como um conceito
funcional, já que apenas a composição e a função do exsudato são pré-requisitos
para a sua caracterização (MAYER et al. 2011). A ocorrência dos
coléteres não está limitada às gemas vegetativas, ocorrendo também em órgãos
reprodutivos e plântulas. Uma abordagem anatômica e histoquímica foi realizada
por Mayer et al. (2011) que apontou coléteres em órgãos vegetativos –
primórdios foliares e protocormos, gemas axilares e apicais em rizomas maduros
– e em órgãos reprodutivos – base das brácteas, bractéolas e sépalas – em uma
espécie de orquídea, Oncidium flexuosum Sims.
Após a identificação da
localização dos tricomas nas gemas em desenvolvimento, um estudo estrutural e
histoquímico foi realizado. Estruturalmente, os tricomas são digitiformes,
compostos de duas células unisseriadas, em que a célula apical é alongada e
apresenta citoplasma denso. O exsudato é acumulado no espaço subcuticular1,
promovendo o destaque da cutícula.
Os testes histoquímicos efetuados
indicaram a presença de mucilagem em associação com compostos lipofílicos e
protéicos no interior das células secretoras. De acordo com as 4 autoras, a
localização dos tricomas e a caracterização do exsudato produzido indicam o
envolvimento destas estruturas com a proteção das regiões meristemáticas nos
órgãos vegetativos e reprodutivos, possibilitando assim a caracterização destas
glândulas como coléteres. Devido às semelhanças estruturais e distribuição dos
coléteres em órgãos vegetativos, estas glândulas são frequentemente confundidas
com nectários extraflorais (DAVE; PATEL 1975, MOHAN; INAMDAR 1986, THOMAS
1991).
Os nectários são glândulas
produtoras de secreção predominante em açúcares (FAHN 1979, PACCINI ET AL. 2003,
NICOLSON ET AL. 2007). Discussões acerca da nomenclatura dos nectários
são relatadas na revisão de Schmid (1988). Aqui serão adotados os termos
propostos por Elias; Gelband (1976), na qual funcionalmente as glândulas são
divididas em dois tipos: nectários florais, presentes nos órgãos reprodutivos e
associados diretamente à polinização; nectários extraflorais, ocorrentes nas
peças florais estéreis e órgãos vegetativos, e não envolvidos com a
polinização.
Em geral, os nectários (florais
ou extraflorais) consistem de três componentes (FAHN 2000, PACCINI et al. 2003):
i) epiderme, que apresenta ou não estômatos ou tricomas, por onde o
néctar é liberado; ii) parênquima especializado que produz ou armazena
os solutos do néctar; iii) feixe vascular composto majoritariamente por
floema. Comparado ao floema, o néctar contém açúcares em maior concentração e
quantidades similares de aminoácidos e outros compostos orgânicos, cujas
proporções estão sujeitas a variações temporal, espacial e biótica (HEIL et
al. 2000).
Convencionalmente, propõe-se que
o néctar é originado a partir do floema e modificado pelo parênquima secretor (FAHN
1979); entretanto, esta é uma versão simplificada e discutível (NICOLSON et
al. 2007). Estudos atuais evidenciam que o açúcar provém da fotossíntese
realizada pelo próprio nectário ou, provavelmente, em outros órgãos da planta,
em que o amido pode ser um produto intermediário de armazenamento (NICOLSON et
al. 2007).
A quebra do amido armazenado
torna possível a alta produção de néctar em qualquer momento do dia (PACINI et
al. 2003). Em alguns casos, o tecido nectarífero não difere dos tecidos
adjacentes e apenas o néctar é detectado nectários não estruturados (CASTRO;
MACHADO 2006).
Hidropótios
Tricomas ou estruturas geralmente
multicelulares encontrados nas superfícies submersas das folhas de mono e
dicotiledôneas aquáticas de água-doce. Estão envolvidos no transporte de água e
sais, sendo capazes de reter mais íons minerais – de duas a três vezes – que as
demais células da epiderme (FAHN 1979, CASTRO; MACHADO 2006). De acordo com
Fahn (1979), estas glândulas são encontradas em espécies de Apomogeton,
Ceratophyllum, Myriophyllum, Nymphaea, Potamogeton e Sagittaria, e
apresentam um importante papel no transporte de água e sais para dentro e fora
das plantas aquáticas; a cutícula que reveste os hidropótios é especialmente
permeável à água e nutrientes salinos. As peculiaridades estruturais, similares
às glândulas de sal, sugerem que os hidropótios atuam ativamente no transporte
de minerais (FAHN 1979).
Hidatódios
Estruturas encontradas nas ornamentações
(dentes, crenas etc.) das margens das folhas que secretam, por processo ativo
(gutação), um líquido de composição variável – desde água pura até soluções
diluídas de solutos orgânicos e inorgânicos na forma de íons (CASTRO; MACHADO
2006).
A gutação ocorre em condições
especiais, quando a capacidade de campo é máxima e a umidade relativa elevada.
A fonte do exsudato é proveniente do xilema, representado por traqueídes
terminais dos feixes vasculares. Os hidatódios são estruturalmente
caracterizados pela presença de bainha do feixe aberta; elementos de condução
exclusivamente xilemáticos; epitema – um parênquima cujas células possuem
paredes finas, com ou sem projeções labirínticas3, geralmente destituídas de
cloroplastídeos – e poros aquíferos semelhantes a estômatos modificados com
câmaras aquíferas. As traqueídes terminais liberam a solução nos proeminentes
espaços intercelulares do epitema; neste sítio ocorre captação seletiva de íons
quando estiverem presentes as células com paredes labirínticas, possibilitando
a nutrição mineral das folhas.
Glândulas de sal
Tricomas presentes em folhas de
plantas que ocupam ambiente salino. Tais estruturas evitam um nível nocivo de
acúmulo de íons minerais nos tecidos de algumas espécies de halófitas, como em
espécies de Laguncularia, que se desenvolvem em mangue, secretando o
excesso de sal na forma de soluções salinas. A fonte do material a ser
secretado é a corrente transpiratória: os íons são conduzidos das células do
mesofilo até as células basais dos tricomas por meio de plasmodesmos e, destas
até as secretoras, via simplasto (CASTRO; MACHADO 2006). Soluções contendo sais
minerais na forma de íons e carbonatos podem ser secretadas por dois tipos
distintos de tricomas: as células secretoras morrem em decorrência dos níveis
elevados de íons em seu vacúolo (p.ex. Atriplex), denominada glândula
holócrina; ou permanecem vivas em decorrência dos íons serem liberados do
protoplasto da célula secretora por microvesículas – processo de exocitose – e
da cutícula para o exterior via microporos, como em espécies de Spartina e
de Avicennia (Castro; Machado 2006).
Glândulas digestivas
Alguns tipos de estruturas
secretoras, como nectários e tricomas secretores de mucilagem, podem ser encontrados
nas folhas das plantas carnívoras, mas as que garantem a caracterização desta
síndrome são as glândulas digestivas. As enzimas digestivas são produzidas por
tricomas glandulares em Dionaea, Drosophyllum, Pinguicula e Nepenthes,
e por emergências vascularizadas em Drosera (figuras 18-20). Dentre
as enzimas já detectadas, as esterases, fosfatases ácidas e proteases
predominam sobre as peroxidases, amilases, lípases e invertases. Através da
presença de dispositivos de atração, as presas são capturadas, ativa ou
passivamente, e digeridas graças à presença de enzimas produzidas pelas
glândulas digestivas. Estudos auto-radiográficos revelaram que as células
secretoras das glândulas digestivas reabsorvem e reintegram os produtos do
material digerido ao metabolismo da planta, garantindo o suprimento de fosfato
e nitrogênio (Castro; Machado 2006).
Tricomas urticantes
Tricomas presentes em espécies
pertencentes à Euphorbiaceae, Hydrophyllaceae, Loasaceae e Urticaceae, que
produzem uma secreção que causa reação alérgica, a qual varia de irritação
suave até a morte, dependendo das espécies envolvidas e das circunstâncias em
que se deu o contato entre a planta e o animal. Constituem, pois, elementos de
defesa das plantas que os possuem. Além da reação alérgica, os extratos brutos
e dialisados da secreção de espécies de Urtica provocam dor. O tricoma
consiste de uma única célula vesiculosa na base e gradualmente afilada em
direção ao ápice, cuja região intermediária entre a base e o ápice lembra um
tubo capilar fino. Quando este tricoma é tocado, o ápice rompe-se ao longo de
uma linha predeterminada e o liquido que está sob pressão no interior do
tricoma é introduzido no corpo do animal (Castro; Machado 2006).
Osmóforos
Osmóforos, ou glândulas de odor, produzem
e liberam compostos voláteis associados ou não à atração de polinizadores
(Wiemer et al. 2009) Os odores produzidos são compostos majoritariamente
por óleos voláteis – terpenos e compostos fenólicos de baixo peso molecular
(Vogel 1990). As flores de Orchidaceae apresentam osmóforos com estruturas
polimórficas consistentes como estados de caráter (Dudareva 2006). Estas
glândulas são descritas anatomicamente como células epidérmicas simples,
tricomas ou papilas nos lobos e na superfície do calo do labelo (Endress 1994).
Em Grobya amherstiae, os osmóforos são tricomas presentes na superfície
externa do labelo.
9. Elaióforos
Os elaióforos são estruturas
glandulares produtoras de lipídios no estado líquido (Vogel 1974). Os
polinizadores podem utilizar o exsudato lipídico como fonte de alimentação,
devido ao seu valor nutricional (Vogel 1974, Pansarin et al. 2009) ou
como cola na construção e reparação de ninhos. Os elaióforos estão presentes em
regiões diferenciadas na epiderme do perianto e perigônio, encontrados sob dois
tipos celulares definidos, epidérmico e tricomáceo (Vogel 1974). Nos elaióforos
epidérmicos, as células epidérmicas em paliçada são secretoras; este é o tipo
predominante em angiospermas, encontrados em Krameriaceae (atual
Zygophyllaceae), Malpighiaceae e Orchidaceae. O tipo tricomáceo consiste em
áreas com inúmeros tricomas glandulares, unicelulares em Iridaceae e
Orchidaceae, e multicelulares em Cucurbitaceae, Primulaceae, Scrophulariaceae,
Solanaceae e Orchidaceae (Endress 1994). Os elaióforos e a identidade dos
compostos químicos produzidos por estas estruturas variam de acordo com o
táxon, constituindo caracteres relevantes em estudos taxonômicos e
filogenéticos (Endress 1994). Em Grobya amherstiae, Pansarin et al. (2009)
registraram a ocorrência de elaióforos tricomáceos no ápice do labelo
II – Estruturas secretoras internas
Idioblastos
Idioblastos secretores são
células individualizadas de composição química distinta das células que a cercam;
apresentam formato variável e são classificadas de acordo com as substâncias
sintetizadas (Castro; Demarco 2008). No vacúolo dos idioblastos pode ocorrer
parte da síntese de precursores – p.ex. alcalóides indólicos – ou armazenamento
de compostos bioativos – p.ex. alcalóides tropânicos e nicotínicos (MAHROUG et
al. 2006). Diversas classes de compostos fenólicos são
sintetizadas/acumuladas em um grande vacúolo central ou em numerosos glóbulos
de vários tamanhos no citoplasma dos idioblastos.
Canais e cavidades
Canais (ou dutos) e cavidades (ou
bolsas) são glândulas compostas por um epitélio de células secretoras que
delimitam um lume, alongado nos canais e isodiamétrico nas cavidades, no qual o
material é secretado; este exsudato pode possuir natureza química variável
(Fahn 1990). Aguiar-Dias e Cardoso-Gustavson (2011) notaram que, em Polygala
angulata (Polygalaceae), os canais estão presentes nos ângulos do caule
primário em desenvolvimento. Os canais são resiníferos em espécies
norte-americanas, enquanto em Polygala angulata, espécie brasileira
ocorrente no cerrado, os canais são mucilaginosos; segundo as autoras, a
ocorrência de canais mucilaginosos pode estar relacionada a ambientes
xeromórficos. Caso semelhante ocorre nas cavidades presentes nas lâminas
foliares de Zornia glabra (Fabaceae): as cavidades apresentam conteúdo
mucilaginoso, em comparação a outras espécies de Fabaceae cujo conteúdo das
cavidades é lipofílico.
Laticíferos
O laticífero é uma célula
especializada ou uma fileira de células que contêm látex. O látex é uma
suspensão ou emulsão de pequenas partículas de terpenos (óleos essenciais,
resinas) e ceras dispersas em uma solução que contém sais, polissacarídeos,
ácidos orgânicos, alcalóides, enzimas proteolíticas, etc. A borracha não é um
componente universal (Fahn 1979). De acordo com FAHN (1979), os laticíferos
estão agrupados em dois tipos principais: os laticíferos articulados e
não-articulados. Esta classificação não apresenta relações entre grupos
taxonômicos e os diferentes tipos de laticíferos podem ser encontrados em
diferentes espécies de uma família. Os laticíferos não-articulados são
multinucleados. Eles se desenvolvem a partir de uma única célula que se alonga
muito com o crescimento da planta. Estes laticíferos são também chamados de
células laticíferas. Em algumas plantas, eles se desenvolvem em tubos chamados
laticíferos não-articulados não-ramificados. Em outras espécies, eles se
ramificam repetidamente, formando sistemas imensos. Estes laticíferos são
chamados não-articulados ramificados. Os laticíferos articulados consistem de
séries simples ou ramificadas de células que são normalmente alongadas. As
paredes terminais destas células permanecem inteiras ou tornam-se porosas ou
desaparecem completamente. No último caso, o resultado final é uma estrutura
longa e multinucleada como encontrada nos laticíferos não-articulados. Para
diferenciá-los, é necessário um estudo ontogenético do laticífero.
Os laticíferos articulados
simples são chamados articulados não-anastomosados (ou não-ramificados),
enquanto os laticíferos articulados ramificados que se formam de ramificações
laterais são chamados de articulados anastomosados (ou ramificados).
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